Em 2025, em Portugal trabalhou-se em média 39,7 horas por semana, contra 37 na média da União Europeia. Em 2024, cada trabalhador gerou cerca de 47,7 mil euros de riqueza, o que nos deixa em 19.º lugar na UE, segundo a PORDATA. Trabalhamos mais horas e produzimos menos por pessoa. É neste contexto que muitos empresários me perguntam se a inteligência artificial é a solução. A resposta honesta, com base nos estudos sérios que existem, é: pode ser, mas não da forma como a maioria a está a usar.
O que dizem os estudos, sem exageros
Como engenheiro, desconfio de promessas sem dados. Felizmente, já há estudos rigorosos, com grupos de controlo, e vale a pena conhecê-los.
- Apoio ao cliente: Brynjolfsson, Li e Raymond acompanharam 5.179 agentes de suporte. Com um assistente de IA, resolveram em média 14% mais pedidos por hora. Os clientes ficaram mais satisfeitos e a rotatividade da equipa baixou.
- Escrita profissional: Noy e Zhang, num estudo publicado na Science em 2023 com 453 profissionais qualificados, mediram tarefas de escrita cerca de 40% mais rápidas e com qualidade cerca de 18% superior, segundo avaliadores independentes.
- Consultoria: Dell'Acqua e colegas, da Harvard Business School, testaram 758 consultores da BCG. Em tarefas adequadas à IA, quem a usou concluiu 12,2% mais tarefas, 25,1% mais depressa e com qualidade mais de 40% superior.
Até aqui, tudo parece fantástico. Mas o mesmo estudo de Harvard trouxe a lição mais importante.
A fronteira irregular: onde a IA ajuda e onde atrapalha
Os investigadores chamaram-lhe a "fronteira tecnológica irregular". A IA é muito boa em algumas tarefas e surpreendentemente má noutras, e a fronteira entre umas e outras não é óbvia. Numa tarefa desenhada para ficar fora dessa fronteira, os consultores que usaram IA tiveram 19 pontos percentuais menos probabilidade de chegar à resposta correta do que os que trabalharam sozinhos. Confiaram numa resposta convincente, mas errada.
O estudo da METR, de 2025, vai no mesmo sentido. Dezasseis programadores experientes, a trabalhar em projetos que conheciam bem, fizeram 246 tarefas. Antes, esperavam que a IA os tornasse 24% mais rápidos. No fim, achavam que tinham sido 20% mais rápidos. Na realidade, com IA demoraram 19% mais tempo. A perceção e a medição disseram coisas opostas.
Para uma PME, a conclusão é simples: não basta "dar IA à equipa". É preciso saber em que tarefas ela ajuda e medir, em vez de confiar na sensação.
Quem ganha mais são os menos experientes
Há um padrão que se repete. No apoio ao cliente, os agentes novos ou menos qualificados melhoraram 34%, enquanto os mais experientes quase não ganharam. Na BCG, os consultores abaixo da média melhoraram 43% e os acima da média 17%. No estudo de escrita, quem começou pior foi quem mais beneficiou.
Isto é uma excelente notícia para uma PME com 5 a 50 pessoas. A IA pode funcionar como uma forma de passar o conhecimento dos melhores para quem está a chegar. Um comercial novo pode preparar propostas mais perto do nível do seu melhor vendedor. Um administrativo recém-chegado pode responder a clientes com a qualidade de quem está na casa há dez anos. Encurta-se a curva de aprendizagem.
Porque é que os ganhos não aparecem na conta de resultados
Este é o ponto que vejo falhar com mais frequência. Suponha, num exemplo hipotético, que a sua equipa poupa 30 minutos por dia com IA. Se essa meia hora se dissolver em mais emails, mais reuniões ou pausas mais longas, o seu resultado líquido não muda um cêntimo. O tempo poupado só vale dinheiro quando é redirecionado deliberadamente para algo que gera receita ou reduz custos.
Ganhos de produtividade aparecem nas horas. Ganhos de negócio aparecem nas vendas, na margem e na retenção de clientes. Entre uns e outros está uma decisão de gestão: o que fazemos com o tempo libertado? Sem essa decisão, a IA é só mais uma ferramenta simpática.
Um método prático em quatro passos
É o método que proponho aos empresários com quem trabalho:
- 1. Escolha três tarefas concretas. Repetitivas, com muito texto ou informação, e onde um erro é fácil de detetar: respostas a pedidos de orçamento, resumos de reuniões, primeiras versões de propostas. Evite, para começar, decisões críticas ou cálculos que ninguém vai verificar.
- 2. Meça antes e depois. Durante duas semanas, registe quanto tempo cada tarefa demora sem IA. Depois, mais duas semanas com IA. Use o relógio, não a impressão. O estudo da METR mostra que a sensação engana.
- 3. Redirecione as horas poupadas. Defina por escrito para onde vai o tempo libertado: mais chamadas a clientes, mais seguimento de propostas, visitas a contas importantes. Atribua um responsável e um número semanal.
- 4. Reveja a qualidade. Uma vez por semana, alguém experiente verifica uma amostra do trabalho feito com IA. Se a qualidade cair, essa tarefa está fora da fronteira e deve voltar ao processo antigo ou ser redesenhada.
Ao fim de um mês, tem dados reais da sua empresa, não promessas de fornecedores. Mantém o que funciona, corta o que não funciona e alarga às tarefas seguintes.
A ação desta semana
Escolha uma única tarefa que se repete todas as semanas na sua empresa. Peça a quem a faz para cronometrar as próximas cinco vezes, sem IA. Escreva num papel para onde iria o tempo, se conseguisse poupar metade. Só depois disso experimente a IA. Começar pela medição, e não pela ferramenta, é o que separa quem colhe resultados de quem apenas experimenta.
Se quiser ajuda para identificar as tarefas certas na sua empresa e transformar horas poupadas em vendas e margem, a equipa da ActionCOACH Porto pode ajudar, seja através de uma Análise Gratuita ou de sessões de Coaching 1:1.