Segundo o barómetro da Informa D&B, nos primeiros sete meses de 2026 houve 1.216 novos processos de insolvência, mais 5% do que no ano anterior. No mesmo período, a constituição de empresas caiu 4,2%, para cerca de 32.300 novas sociedades. Depois de 2025 ter sido um ano recorde, com 53.030 empresas criadas, a economia empresarial está a desacelerar desde o início de 2026.
Não escrevo isto para assustar ninguém. Escrevo porque, nos meus anos de coaching, raramente vi uma empresa cair de um dia para o outro. Quase sempre os sinais estavam nos números seis, doze ou dezoito meses antes. O problema é que ninguém estava a olhar para eles com regularidade, ou olhava e preferia acreditar que o próximo mês ia ser melhor.
Porque é que as empresas chegam tarde demais
Os dados do INE para 2024 mostram que 73,8% das empresas sobrevivem ao primeiro ano, mas só 47,7% chegam ao fim do terceiro. A fragilidade é real, sobretudo nos primeiros anos. E há um fator que agrava tudo: os pagamentos. O estudo da Informa D&B sobre comportamentos de pagamento, de 2026, indica que só 20,2% das empresas em Portugal pagam dentro dos prazos acordados, o que nos coloca em penúltimo lugar entre 37 países.
Os atrasos não são pequenos. Segundo o mesmo estudo, 65,2% das empresas pagam até 30 dias depois do prazo, 9% entre 30 e 90 dias e 5,6% com mais de 90 dias. Nas grandes empresas, só 4% pagam a tempo. Para uma PME que fornece clientes grandes, isto quer dizer que uma parte relevante do seu fundo de maneio está, na prática, emprestada a quem compra.
Na prática, uma empresa pode ter vendas, ter clientes e até ter lucro na demonstração de resultados, e mesmo assim ficar sem dinheiro para pagar salários. Lucro é uma opinião; dinheiro em caixa é um facto. A maior parte dos empresários olha para a faturação. Poucos olham, todas as semanas, para a tesouraria e para os indicadores que a antecipam.
Sinais financeiros a vigiar
Estes são os indicadores que peço a qualquer empresário para acompanhar, de preferência numa folha única atualizada todas as semanas:
- Prazo médio de recebimento a aumentar. Se os clientes demoram cada vez mais a pagar, o dinheiro está a sair da empresa para financiar os outros.
- Prazo médio de pagamento a fornecedores a aumentar sem ter sido negociado. Significa que a empresa está a usar os fornecedores como banco.
- Margem bruta a descer durante três meses seguidos, mesmo com vendas estáveis.
- Uso permanente da conta caucionada ou do descoberto. Uma linha de crédito de curto prazo sempre no limite deixou de ser uma folga e passou a ser uma dependência.
- Atrasos nas obrigações com o Estado, como impostos ou contribuições. É muitas vezes o primeiro sinal sério.
- Previsão de tesouraria a 13 semanas com saldo negativo em alguma semana.
Sinais operacionais e comerciais
Nem todos os sinais estão no balancete. Alguns aparecem antes no dia a dia:
- Dependência crescente de um ou dois clientes.
- Queda no número de leads ou propostas, mesmo que a faturação do mês ainda pareça normal.
- Descontos cada vez mais frequentes para fechar vendas.
- Saída de pessoas-chave ou aumento do absentismo.
- Stock parado a crescer.
- O empresário a passar mais tempo a apagar fogos do que a gerir.
Os 5 caminhos para aumentar o lucro ajudam aqui também, mas ao contrário. Se o número de leads, a taxa de conversão, as transações por cliente, o valor médio ou a margem estão todos a descer ao mesmo tempo, mesmo que pouco, o efeito multiplicado no lucro é grande. Imagine uma empresa hipotética em que cada um destes cinco números cai 5%: o lucro não cai 5%, cai muito mais.
Um painel simples para agir a tempo
A solução não é complicada. Exige disciplina, não software caro. Proponho quatro passos:
- 1. Escolher oito a dez indicadores das listas acima, os mais relevantes para o seu negócio.
- 2. Definir para cada um um limite de alerta, por exemplo prazo médio de recebimento acima de 60 dias.
- 3. Rever o painel todas as semanas, à mesma hora, durante 30 minutos, com a pessoa responsável pelas finanças.
- 4. Associar a cada alerta uma ação pré-definida. Se um cliente ultrapassa o prazo, quem liga, quando e o que acontece a seguir.
O painel não serve de nada se ninguém for responsável por ele. Defina quem o atualiza, quem o revê e quem decide quando um alerta dispara. Na maior parte das PME com quem trabalho, a primeira vitória não é um número melhor: é o empresário passar a saber, todas as segundas-feiras, onde está o dinheiro e onde vai estar daqui a três meses.
Quando um sinal aparece, há tempo para negociar com fornecedores, rever preços, cortar custos ou procurar financiamento em condições razoáveis. Quando aparecem todos ao mesmo tempo, as opções já são poucas e caras.
Uma ação para esta semana
Faça uma previsão de tesouraria para as próximas 13 semanas: saldo inicial, recebimentos esperados semana a semana (sendo realista sobre os atrasos dos clientes) e pagamentos previstos. Se alguma semana ficar negativa, já sabe onde tem de concentrar a atenção. Se nenhuma ficar, mantenha a folha e atualize-a todas as sextas-feiras.
Se quiser construir este painel com acompanhamento, a equipa da ActionCOACH Porto terá gosto em conversar consigo. No Coaching 1:1 trabalhamos precisamente sistemas, métricas e accountability para que as decisões sejam tomadas a tempo.